Capa de Lésbia, de Maria Benedita Bormann
Literatura · Biblioteca Sapphic

Lésbia

Por Maria Benedita Bormann

Romance de Maria Benedita Bormann, publicado sob o pseudônimo Délia em 1890. Lésbia acompanha Arabela em sua busca por independência e por uma identidade própria como mulher e escritora no Brasil do século XIX.

1890 Original em   Português Domínio público

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Guia de leitura

Sobre Lésbia

Publicado em 1890, Lésbia é um romance de Maria Benedita Câmara Bormann, escritora que assinava sua produção literária com o pseudônimo Délia.

A protagonista é Arabela, chamada de Bela, uma jovem de família privilegiada cuja trajetória é profundamente transformada por experiências amorosas, conflitos conjugais e pelas limitações impostas às mulheres na sociedade brasileira do século XIX.

Depois de um casamento marcado por maus-tratos e humilhações, Arabela rompe com o marido e retorna à casa dos pais. Outras experiências afetivas também produzem desilusões, mas é justamente nesse processo que a personagem encontra nos estudos e na escrita uma possibilidade de reconstrução.

A literatura deixa gradualmente de ser apenas refúgio. Arabela escreve, publica e passa a construir uma carreira no mundo das letras.

Nesse momento surge Lésbia.

Assim como Maria Benedita Bormann utilizava o pseudônimo Délia, sua personagem adota um nome literário para ingressar publicamente no universo da escrita. A transformação de Arabela em Lésbia torna-se um dos elementos centrais do romance.

A obra acompanha os obstáculos enfrentados por uma mulher que procura reconhecimento profissional em um ambiente literário predominantemente masculino e discute educação feminina, casamento, autonomia, relações amorosas, sexualidade e criação intelectual.

Pesquisadores contemporâneos também analisam Lésbia como um romance sobre a formação de uma artista: além da vida sentimental da protagonista, acompanhamos o desenvolvimento de sua identidade como escritora.

Publicado no final do século XIX, o livro permite observar debates sobre os espaços sociais reservados às mulheres justamente em um período de grandes transformações políticas e culturais no Brasil.

Na Biblioteca Sapphic, Lésbia integra a recuperação de escritoras brasileiras que questionaram, por meio da literatura, os limites impostos às mulheres e reivindicaram para elas participação na vida intelectual e cultural.

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Por que ler Lésbia hoje?

Há algo particularmente interessante em Lésbia: Maria Benedita Bormann escreveu um romance sobre uma mulher que se torna escritora quando ela própria precisava construir seu espaço como escritora no Brasil do século XIX.

Maria Benedita assinava como Délia.

Sua personagem começa como Arabela e, quando entra no mundo literário, transforma-se em Lésbia.

Essa relação entre autora e personagem faz da identidade literária um dos grandes temas do romance.

A história começa muito antes do sucesso profissional de Arabela. Seu casamento se revela profundamente diferente daquilo que esperava e termina em ruptura. Outras experiências amorosas também provocam conflitos e desilusões.

Em vez de restringir sua protagonista ao destino doméstico tradicionalmente reservado às mulheres de sua posição social, Bormann conduz Arabela aos livros, aos estudos e finalmente à escrita.

Surge então outra batalha.

Tornar-se escritora não significa apenas escrever bem. Arabela precisa entrar em um mercado literário controlado majoritariamente por homens e conquistar reconhecimento em um ambiente que recebia de maneira diferente homens e mulheres que pretendiam viver das letras.

É nesse processo que Arabela se transforma em Lésbia.

A personagem passa a construir simultaneamente uma obra, uma reputação pública e uma nova identidade.

Uma curiosidade bibliográfica aumenta o interesse pela obra: pesquisas indicam que Lésbia foi escrito em 1884, embora sua publicação em livro tenha ocorrido somente em 1890.

Há também um exemplar histórico com uma história especialmente interessante. Pesquisas realizadas a partir do acervo da Biblioteca Rio-Grandense registram um exemplar que pertenceu à escritora Revocata Heloísa de Melo e que recebeu dedicatória da própria autora em novembro de 1890.

Mais de um século depois, Lésbia voltou a despertar interesse acadêmico justamente porque permite observar o mundo literário brasileiro pela perspectiva de uma mulher que deseja participar dele profissionalmente.

A obra também aborda casamento, relações amorosas, desejo, educação feminina e diferentes expectativas sociais relacionadas ao comportamento das mulheres.

Por isso, o título não deve ser interpretado automaticamente segundo o significado contemporâneo da palavra “lésbica”. Lésbia é o nome literário assumido pela protagonista, e qualquer análise sobre sexualidade ou identidade precisa respeitar o texto e seu contexto histórico.

Na Biblioteca Sapphic, Lésbia possui especial relevância não simplesmente por seu título, mas por colocar no centro da narrativa uma mulher tentando assumir o controle sobre sua vida afetiva, intelectual e profissional em uma sociedade que restringia profundamente essas possibilidades.

Autora

Quem foi Maria Benedita Bormann?

1853 — 1895

Maria Benedita Bormann (1853–1895), conhecida literariamente pelo pseudônimo Délia, foi romancista, contista, cronista e jornalista brasileira e uma das escritoras que participaram ativamente da vida literária do Rio de Janeiro no final do século XIX.

Nascida em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1853, Maria Benedita Câmara de Bormann mudou-se ainda jovem com a família para o Rio de Janeiro, então capital do Império. Foi nesse ambiente que desenvolveu grande parte de sua atividade intelectual e literária.

Sua formação ultrapassava aquilo que normalmente se esperava da educação feminina naquele período. Teve contato com línguas estrangeiras, literatura, música e artes, interesses que posteriormente apareceriam de diferentes maneiras em sua produção intelectual.

Na literatura e na imprensa adotou o pseudônimo Délia. A utilização de pseudônimos por escritoras não era incomum no século XIX, quando mulheres que desejavam participar publicamente do mundo das letras ainda enfrentavam fortes restrições sociais e preconceitos.

Maria Benedita participou intensamente da imprensa carioca. Colaborou com periódicos como O Cruzeiro e Gazeta da Tarde e construiu uma produção que incluía romances, contos, crônicas e textos publicados em jornais.

Entre suas obras estão Aurélia, Uma Vítima, Lésbia, Celeste e Angelina.

Seu romance mais conhecido atualmente é Lésbia, publicado em 1890.

A protagonista do romance, Arabela, enfrenta um casamento marcado por violência e humilhações e posteriormente procura reconstruir sua vida por meio do estudo e da escrita. Ao tornar-se escritora, passa a utilizar justamente o pseudônimo Lésbia.

Essa escolha permitiu a Maria Benedita discutir dentro da própria ficção uma questão que conhecia diretamente: as dificuldades encontradas por uma mulher que desejava ocupar espaço no ambiente literário brasileiro.

O romance aborda independência feminina, casamento, violência doméstica, educação das mulheres, sexualidade e os obstáculos impostos às escritoras em um meio intelectual predominantemente masculino.

Pesquisas acadêmicas contemporâneas têm chamado atenção para outra característica de Lésbia: o romance acompanha não apenas a vida sentimental de sua protagonista, mas também sua formação e profissionalização como escritora. Dessa maneira, literatura e autoria feminina tornam-se parte do próprio enredo.

Há uma interessante relação entre autora e personagem. Maria Benedita publicava como Délia; sua protagonista, ao ingressar no mundo das letras, também assume um nome literário: Lésbia. A experiência de construir uma identidade pública como escritora torna-se, portanto, um dos elementos centrais da narrativa.

Durante muito tempo, entretanto, Maria Benedita Bormann permaneceu pouco presente nas histórias mais conhecidas da literatura brasileira. Pesquisas sobre escritoras brasileiras do século XIX contribuíram para recuperar sua produção e recolocá-la em circulação.

Essa recuperação continua atualmente. Lésbia voltou a receber estudos acadêmicos e novas edições, permitindo que uma obra publicada no final do século XIX encontre novas gerações de leitoras.

Maria Benedita Bormann morreu no Rio de Janeiro em 1895, aos 41 anos.

Na Biblioteca Sapphic, recuperar Maria Benedita Bormann significa ampliar o espaço dedicado às escritoras brasileiras do século XIX e apresentar uma autora que colocou independência, criação intelectual, relações afetivas e os limites impostos às mulheres no centro de sua literatura.