Capa de Celeste, de Maria Benedita Bormann
Literatura · Biblioteca Sapphic

Celeste

Por Maria Benedita Bormann

Romance de Maria Benedita Bormann, publicado sob o pseudônimo Délia em 1893. Celeste aborda casamento, violência conjugal, desejo e autonomia feminina no Brasil do final do século XIX.

1893 Original em   Português Domínio público

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Guia de leitura

Sobre Celeste

Publicado em 1893, Celeste é um romance de Maria Benedita Câmara de Bormann, escritora brasileira que assinava sua produção literária com o pseudônimo Délia.

A narrativa acompanha Celeste, uma mulher cuja experiência amorosa e conjugal coloca em primeiro plano conflitos relacionados ao casamento, à violência, ao desejo e às limitações impostas às mulheres no final do século XIX.

Ao desenvolver a trajetória da protagonista, Maria Benedita Bormann questiona modelos de comportamento feminino e explora as tensões existentes entre as expectativas sociais e a possibilidade de uma mulher tomar decisões sobre a própria vida.

Casamento, relações afetivas, sexualidade, moralidade e autonomia feminina atravessam a narrativa. Esses temas aparecem em um período de profundas transformações políticas e sociais no Brasil, poucos anos depois do fim da escravidão e da proclamação da República.

A obra também deve ser compreendida dentro das discussões sobre casamento, família e condição feminina que circulavam na sociedade brasileira daquele período.

Um exemplar histórico preservado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo, corresponde ao segundo milheiro de Celeste, publicado no Rio de Janeiro em 1893, com 329 páginas.

Esse exemplar constitui uma importante referência documental para a história da obra e demonstra sua circulação ainda no próprio ano de publicação.

Na Biblioteca Sapphic, Celeste amplia a recuperação da produção de Maria Benedita Bormann e apresenta às leitoras uma escritora que colocou experiências, conflitos e possibilidades de autonomia das mulheres no centro de sua ficção.

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Por que ler Celeste hoje?

Celeste apresenta uma protagonista que confronta algumas das estruturas mais rígidas reservadas às mulheres no Brasil do final do século XIX.

O romance começa dentro de um universo em que casamento, reputação e comportamento feminino estavam submetidos a fortes expectativas sociais.

Maria Benedita Bormann, entretanto, não constrói sua personagem apenas para reproduzir essas convenções.

A experiência conjugal de Celeste produz conflitos que levam a narrativa a discutir violência, desejo, relações afetivas e a capacidade de uma mulher tomar decisões sobre a própria existência.

Esse aspecto torna a obra particularmente interessante quando observada ao lado de Lésbia.

Nos dois romances, Délia coloca mulheres no centro da narrativa e utiliza suas experiências para explorar os limites impostos à autonomia feminina.

Mas Celeste desenvolve esses conflitos a partir de uma trajetória própria.

A obra foi publicada em um momento particularmente significativo da história brasileira. A República havia sido proclamada poucos anos antes e questões relacionadas ao casamento civil, à família e à possibilidade do divórcio participavam dos debates sociais e jurídicos daquele período.

Algumas ideias e explicações sobre comportamento e sexualidade presentes na literatura daquele tempo refletem concepções médicas, científicas e morais do século XIX. Por isso, precisam ser compreendidas dentro de seu contexto histórico.

Há também uma curiosidade bibliográfica importante.

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo, preserva um exemplar identificado como “Segundo milheiro”, publicado no Rio de Janeiro em 1893.

O volume possui 329 páginas e registra Magalhães como editor.

A existência desse exemplar permite hoje consultar diretamente um testemunho material da circulação de Celeste no século XIX.

Na Biblioteca Sapphic, recuperar Celeste significa apresentar não apenas uma obra histórica, mas também ampliar o acesso à produção de uma escritora brasileira que utilizou a ficção para explorar casamento, desejo, violência e autonomia feminina em uma época na qual esses temas eram profundamente condicionados pelas expectativas sociais impostas às mulheres.

Autora

Quem foi Maria Benedita Bormann?

1853 — 1895

Maria Benedita Bormann (1853–1895), conhecida literariamente pelo pseudônimo Délia, foi romancista, contista, cronista e jornalista brasileira e uma das escritoras que participaram ativamente da vida literária do Rio de Janeiro no final do século XIX.

Nascida em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1853, Maria Benedita Câmara de Bormann mudou-se ainda jovem com a família para o Rio de Janeiro, então capital do Império. Foi nesse ambiente que desenvolveu grande parte de sua atividade intelectual e literária.

Sua formação ultrapassava aquilo que normalmente se esperava da educação feminina naquele período. Teve contato com línguas estrangeiras, literatura, música e artes, interesses que posteriormente apareceriam de diferentes maneiras em sua produção intelectual.

Na literatura e na imprensa adotou o pseudônimo Délia. A utilização de pseudônimos por escritoras não era incomum no século XIX, quando mulheres que desejavam participar publicamente do mundo das letras ainda enfrentavam fortes restrições sociais e preconceitos.

Maria Benedita participou intensamente da imprensa carioca. Colaborou com periódicos como O Cruzeiro e Gazeta da Tarde e construiu uma produção que incluía romances, contos, crônicas e textos publicados em jornais.

Entre suas obras estão Aurélia, Uma Vítima, Lésbia, Celeste e Angelina.

Seu romance mais conhecido atualmente é Lésbia, publicado em 1890.

A protagonista do romance, Arabela, enfrenta um casamento marcado por violência e humilhações e posteriormente procura reconstruir sua vida por meio do estudo e da escrita. Ao tornar-se escritora, passa a utilizar justamente o pseudônimo Lésbia.

Essa escolha permitiu a Maria Benedita discutir dentro da própria ficção uma questão que conhecia diretamente: as dificuldades encontradas por uma mulher que desejava ocupar espaço no ambiente literário brasileiro.

O romance aborda independência feminina, casamento, violência doméstica, educação das mulheres, sexualidade e os obstáculos impostos às escritoras em um meio intelectual predominantemente masculino.

Pesquisas acadêmicas contemporâneas têm chamado atenção para outra característica de Lésbia: o romance acompanha não apenas a vida sentimental de sua protagonista, mas também sua formação e profissionalização como escritora. Dessa maneira, literatura e autoria feminina tornam-se parte do próprio enredo.

Há uma interessante relação entre autora e personagem. Maria Benedita publicava como Délia; sua protagonista, ao ingressar no mundo das letras, também assume um nome literário: Lésbia. A experiência de construir uma identidade pública como escritora torna-se, portanto, um dos elementos centrais da narrativa.

Durante muito tempo, entretanto, Maria Benedita Bormann permaneceu pouco presente nas histórias mais conhecidas da literatura brasileira. Pesquisas sobre escritoras brasileiras do século XIX contribuíram para recuperar sua produção e recolocá-la em circulação.

Essa recuperação continua atualmente. Lésbia voltou a receber estudos acadêmicos e novas edições, permitindo que uma obra publicada no final do século XIX encontre novas gerações de leitoras.

Maria Benedita Bormann morreu no Rio de Janeiro em 1895, aos 41 anos.

Na Biblioteca Sapphic, recuperar Maria Benedita Bormann significa ampliar o espaço dedicado às escritoras brasileiras do século XIX e apresentar uma autora que colocou independência, criação intelectual, relações afetivas e os limites impostos às mulheres no centro de sua literatura.