Capa de Cantos à beira-mar, de Maria Firmina dos Reis
Literatura · Biblioteca Sapphic

Cantos à beira-mar

Por Maria Firmina dos Reis

Publicado em 1871, Cantos à beira-mar reúne a poesia de Maria Firmina dos Reis em versos marcados pelo amor, pela saudade, pela melancolia, pela natureza e pela presença constante do mar.

1871 Original em   Português Domínio público

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Guia de leitura

Sobre Cantos à beira-mar

Publicado em São Luís do Maranhão em 1871, Cantos à beira-mar é uma coletânea de poemas de Maria Firmina dos Reis e uma das obras fundamentais para conhecer a dimensão poética de sua produção literária.

Mais conhecida atualmente pelo romance Úrsula e pelo conto abolicionista A Escrava, Maria Firmina também desenvolveu uma produção poética extensa. Em Cantos à beira-mar, sentimentos íntimos, lembranças, perdas, afetos, natureza e paisagem aparecem repetidamente entrelaçados.

O próprio título revela uma das imagens centrais da coletânea. O mar e a paisagem litorânea funcionam não apenas como cenário, mas também como elementos associados à contemplação, à memória e aos estados emocionais presentes nos poemas.

Amor, ausência, saudade, solidão e melancolia atravessam diferentes momentos da obra. Ao mesmo tempo, a coletânea permite observar a linguagem poética e as convenções literárias do século XIX brasileiro.

A primeira edição foi publicada em 1871, em São Luís, pela Tipografia do País.

Cantos à beira-mar também amplia a compreensão da trajetória de Maria Firmina dos Reis. Sua produção não se limitou ao romance ou à denúncia da escravidão: poesia, imprensa, educação e música fizeram parte de uma atividade intelectual muito mais ampla.

Na Biblioteca Sapphic, a inclusão desta obra permite que a leitora encontre outra dimensão da escrita de Maria Firmina dos Reis e acompanhe a diversidade de sua produção literária no século XIX.

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Por que ler Cantos à beira-mar hoje?

Quem conhece Maria Firmina dos Reis principalmente por Úrsula ou A Escrava pode encontrar em Cantos à beira-mar uma escritora diferente daquela revelada por suas narrativas mais conhecidas.

Aqui, a poesia ocupa o centro.

Publicado em 1871, o livro reúne poemas nos quais sentimentos, lembranças e paisagens se misturam continuamente.

O mar anunciado no título torna-se uma imagem particularmente significativa. A paisagem marítima, a praia, a noite, a natureza e outros elementos do mundo exterior frequentemente acompanham movimentos interiores de lembrança, desejo, ausência e melancolia.

Essa relação entre paisagem e sentimento aproxima a coletânea de características importantes da poesia romântica do século XIX.

Mas Cantos à beira-mar também possui importância dentro da própria trajetória de Maria Firmina.

Doze anos antes, em 1859, ela havia publicado Úrsula. Décadas depois, em 1887, publicaria A Escrava. Entre essas obras está uma escritora que também produzia poesia e participava da vida intelectual e cultural maranhense.

A coletânea ajuda, portanto, a desfazer uma visão limitada de Maria Firmina como autora de uma única obra.

Sua produção atravessou diferentes gêneros e diferentes momentos de sua vida.

Há ainda um aspecto particularmente humano na história do livro: a obra está associada à memória de sua mãe, elemento que acrescenta uma dimensão pessoal ao conjunto poético.

Para a leitora contemporânea, a ortografia e determinadas construções da época podem causar estranhamento quando consultadas em edições históricas. Isso também faz parte do valor documental da obra: o texto preserva marcas da língua e da cultura literária de seu período.

Na Biblioteca Sapphic, Cantos à beira-mar ocupa um lugar diferente de Úrsula e A Escrava. Em vez de repetir apenas a dimensão histórica e abolicionista pela qual Maria Firmina é hoje amplamente estudada, esta obra permite aproximar-se de sua voz poética, de seus afetos e de sua relação literária com memória, natureza e mar.

Autora

Quem foi Maria Firmina dos Reis?

1822 — 1917

Maria Firmina dos Reis (1822–1917) foi escritora, professora, poeta e musicista brasileira e uma das figuras pioneiras da literatura produzida por mulheres negras no Brasil.

Nascida em São Luís do Maranhão, sua trajetória atravessou quase todo o século XIX brasileiro, período marcado pela escravidão, pelo Império, pela campanha abolicionista e, posteriormente, pela implantação da República. Durante muito tempo, sua própria data de nascimento foi registrada de maneira divergente por pesquisadores. Estudos documentais mais recentes recuperaram um processo no qual a própria Maria Firmina solicitou a retificação de seu nascimento para 11 de março de 1822, data hoje adotada por instituições como a Biblioteca Nacional e a Universidade de São Paulo.

Em 1847, Maria Firmina foi aprovada em concurso público para professora de primeiras letras na região de Guimarães, no Maranhão. O magistério se tornaria uma das atividades centrais de sua vida, paralelamente à literatura, à poesia e à música.

Em 1859 publicou Úrsula, seu romance mais conhecido. A primeira edição apareceu assinada não com seu nome completo, mas como obra de “Uma Maranhense”. O livro ocupa uma posição singular na história literária brasileira por apresentar uma crítica contundente à escravidão e conceder voz, memória e subjetividade a personagens negros escravizados.

Em vez de utilizar personagens escravizados apenas como elementos secundários da narrativa, Úrsula permite que eles contem suas próprias experiências. A violência da escravidão, a separação de famílias e a travessia atlântica aparecem na obra a partir de perspectivas que se destacavam no contexto literário brasileiro daquele período.

Maria Firmina continuou escrevendo. Entre suas obras estão a narrativa Gupeva, publicada inicialmente na década de 1860, o livro de poemas Cantos à beira-mar, de 1871, e o conto abolicionista A Escrava, publicado em 1887, às vésperas da abolição da escravidão no Brasil.

Sua atuação não ficou restrita à literatura. Depois de décadas trabalhando como professora, participou de uma experiência educacional extraordinária para a época: uma escola gratuita e mista, na qual meninos e meninas estudavam juntos. A iniciativa provocou resistência no contexto social do século XIX e teve duração limitada, mas tornou-se um dos episódios mais conhecidos de sua trajetória como educadora.

Outra dimensão menos conhecida de Maria Firmina é sua relação com a música. Além de professora e escritora, produziu composições e participou da vida cultural maranhense, mostrando que sua produção intelectual não se restringia ao romance.

Apesar dessa trajetória, sua obra permaneceu durante décadas afastada de grande parte da história literária brasileira. Úrsula praticamente desapareceu de circulação até ser recuperado por pesquisadores no século XX. A partir daí, sucessivos estudos começaram a reconstruir a dimensão de sua produção literária e de sua atuação intelectual.

Essa redescoberta também revelou como a própria biografia de Maria Firmina ainda estava sendo reconstruída. Datas, documentos e episódios de sua vida foram revistos à medida que pesquisadores localizaram novas fontes em arquivos históricos. Por isso, algumas publicações mais antigas ainda apresentam informações diferentes sobre aspectos de sua trajetória.

Maria Firmina dos Reis morreu em Guimarães, Maranhão, em 11 de novembro de 1917.

Mais de um século depois de sua morte, sua produção ocupa posição crescente nos estudos sobre literatura brasileira, literatura afro-brasileira, autoria feminina e história da escravidão. Úrsula passou a circular novamente em escolas, universidades, pesquisas acadêmicas e novas edições.

Na Biblioteca Sapphic, a presença de Maria Firmina dos Reis integra o trabalho de recuperação e valorização de escritoras cuja importância histórica ultrapassa o espaço que lhes foi reservado durante muito tempo no cânone literário brasileiro. Sua trajetória conecta literatura, educação, autoria feminina e crítica à sociedade escravista do século XIX.
Nota sobre a imagem: a ilustração apresentada nesta página é uma representação artística criada para a Biblioteca Sapphic. Não há fotografia ou retrato autenticado conhecido de Maria Firmina dos Reis.