Capa de A Escrava, de Maria Firmina dos Reis
Literatura · Biblioteca Sapphic

A Escrava

Por Maria Firmina dos Reis

Conto abolicionista de Maria Firmina dos Reis publicado em 1887, A Escrava denuncia a violência da escravidão por meio da história de Joana, uma mulher escravizada cuja trajetória é marcada pela perda da liberdade e pela separação de seus filhos.

1887 Original em   Português Domínio público

Minha Biblioteca

Guarde esta leitura no seu perfil Sapphic.

Guia de leitura

Sobre A Escrava

Publicado em novembro de 1887 no terceiro número da Revista Maranhense, A Escrava é um conto de Maria Firmina dos Reis escrito no período final da escravidão legal no Brasil.

A narrativa começa em um salão onde pessoas da sociedade discutem diferentes assuntos até que a conversa chega à escravidão. Nesse ambiente, uma mulher de convicções abolicionistas assume a palavra e passa a relatar uma história que havia presenciado.

No centro dessa história está Joana, uma mulher escravizada em fuga. Sua trajetória revela sucessivas formas de violência produzidas pela escravidão, incluindo a perda da liberdade, a perseguição e a separação de sua família.

Joana relata que acreditou ter sido libertada ainda criança, mas posteriormente descobriu que continuava submetida à escravidão. Um dos acontecimentos mais dolorosos de sua vida ocorre quando seus filhos gêmeos, Carlos e Urbano, são vendidos e enviados para o Rio de Janeiro.

A narrativa também apresenta Gabriel, outro filho de Joana, e utiliza diferentes vozes para expor os efeitos da escravidão sobre indivíduos e famílias.

A publicação ocorreu em 1887, apenas alguns meses antes da abolição legal da escravidão no Brasil em maio de 1888. Esse contexto histórico torna particularmente significativa a posição explicitamente abolicionista apresentada no conto.

A Escrava integra hoje os estudos sobre Maria Firmina dos Reis, literatura brasileira, literatura afro-brasileira, autoria feminina e representações literárias da escravidão no século XIX.

Na Biblioteca Sapphic, a obra integra a recuperação da produção intelectual de mulheres brasileiras cuja escrita participou diretamente dos debates sociais de seu tempo.

Biblioteca Sapphic

Na Biblioteca Sapphic

Por que ler A Escrava hoje?

A Escrava possui uma característica histórica especialmente poderosa: Maria Firmina dos Reis publicou o conto em novembro de 1887, quando a escravidão ainda existia legalmente no Brasil.

A abolição ocorreria apenas alguns meses depois.

A narrativa começa em um espaço de sociabilidade aparentemente comum. Pessoas reunidas em um salão conversam até que surge uma discussão sobre a escravidão. Uma mulher de posições abolicionistas contesta diretamente aqueles que ainda defendem o sistema.

A partir desse momento, o debate deixa de ser apenas abstrato.

A personagem passa a contar a história de Joana.

Joana é uma mulher escravizada cuja experiência revela como a escravidão podia destruir não apenas a liberdade individual, mas também os vínculos familiares.

Quando criança, ela acreditou ter recebido a liberdade. Posteriormente, entretanto, foi novamente submetida à escravidão.

Sua história se torna ainda mais dramática com a separação de seus filhos. Os gêmeos Carlos e Urbano são vendidos e levados para o Rio de Janeiro.

Ao construir a narrativa dessa maneira, Maria Firmina desloca a discussão sobre a escravidão para as experiências das pessoas diretamente atingidas por ela.

Há ainda outro aspecto significativo: mulheres ocupam posições fundamentais na estrutura narrativa.

Uma mulher introduz e conduz parte da denúncia abolicionista, enquanto a experiência de Joana constitui o núcleo emocional da história.

A publicação na Revista Maranhense também ajuda a compreender a atuação intelectual de Maria Firmina. A autora não escreveu apenas livros: participou da imprensa e publicou diferentes gêneros literários em periódicos de seu tempo.

A Escrava apareceu no terceiro número da Revista Maranhense, em novembro de 1887.

Por isso, a obra pode ser lida simultaneamente como literatura e como testemunho da participação de uma escritora brasileira no debate abolicionista às vésperas da Lei Áurea.

Na Biblioteca Sapphic, A Escrava amplia a presença de Maria Firmina dos Reis para além de Úrsula e permite acompanhar como temas relacionados à liberdade, violência, condição feminina e escravidão permaneceram presentes em sua produção literária décadas depois de seu primeiro romance.

Autora

Quem foi Maria Firmina dos Reis?

1822 — 1917

Maria Firmina dos Reis (1822–1917) foi escritora, professora, poeta e musicista brasileira e uma das figuras pioneiras da literatura produzida por mulheres negras no Brasil.

Nascida em São Luís do Maranhão, sua trajetória atravessou quase todo o século XIX brasileiro, período marcado pela escravidão, pelo Império, pela campanha abolicionista e, posteriormente, pela implantação da República. Durante muito tempo, sua própria data de nascimento foi registrada de maneira divergente por pesquisadores. Estudos documentais mais recentes recuperaram um processo no qual a própria Maria Firmina solicitou a retificação de seu nascimento para 11 de março de 1822, data hoje adotada por instituições como a Biblioteca Nacional e a Universidade de São Paulo.

Em 1847, Maria Firmina foi aprovada em concurso público para professora de primeiras letras na região de Guimarães, no Maranhão. O magistério se tornaria uma das atividades centrais de sua vida, paralelamente à literatura, à poesia e à música.

Em 1859 publicou Úrsula, seu romance mais conhecido. A primeira edição apareceu assinada não com seu nome completo, mas como obra de “Uma Maranhense”. O livro ocupa uma posição singular na história literária brasileira por apresentar uma crítica contundente à escravidão e conceder voz, memória e subjetividade a personagens negros escravizados.

Em vez de utilizar personagens escravizados apenas como elementos secundários da narrativa, Úrsula permite que eles contem suas próprias experiências. A violência da escravidão, a separação de famílias e a travessia atlântica aparecem na obra a partir de perspectivas que se destacavam no contexto literário brasileiro daquele período.

Maria Firmina continuou escrevendo. Entre suas obras estão a narrativa Gupeva, publicada inicialmente na década de 1860, o livro de poemas Cantos à beira-mar, de 1871, e o conto abolicionista A Escrava, publicado em 1887, às vésperas da abolição da escravidão no Brasil.

Sua atuação não ficou restrita à literatura. Depois de décadas trabalhando como professora, participou de uma experiência educacional extraordinária para a época: uma escola gratuita e mista, na qual meninos e meninas estudavam juntos. A iniciativa provocou resistência no contexto social do século XIX e teve duração limitada, mas tornou-se um dos episódios mais conhecidos de sua trajetória como educadora.

Outra dimensão menos conhecida de Maria Firmina é sua relação com a música. Além de professora e escritora, produziu composições e participou da vida cultural maranhense, mostrando que sua produção intelectual não se restringia ao romance.

Apesar dessa trajetória, sua obra permaneceu durante décadas afastada de grande parte da história literária brasileira. Úrsula praticamente desapareceu de circulação até ser recuperado por pesquisadores no século XX. A partir daí, sucessivos estudos começaram a reconstruir a dimensão de sua produção literária e de sua atuação intelectual.

Essa redescoberta também revelou como a própria biografia de Maria Firmina ainda estava sendo reconstruída. Datas, documentos e episódios de sua vida foram revistos à medida que pesquisadores localizaram novas fontes em arquivos históricos. Por isso, algumas publicações mais antigas ainda apresentam informações diferentes sobre aspectos de sua trajetória.

Maria Firmina dos Reis morreu em Guimarães, Maranhão, em 11 de novembro de 1917.

Mais de um século depois de sua morte, sua produção ocupa posição crescente nos estudos sobre literatura brasileira, literatura afro-brasileira, autoria feminina e história da escravidão. Úrsula passou a circular novamente em escolas, universidades, pesquisas acadêmicas e novas edições.

Na Biblioteca Sapphic, a presença de Maria Firmina dos Reis integra o trabalho de recuperação e valorização de escritoras cuja importância histórica ultrapassa o espaço que lhes foi reservado durante muito tempo no cânone literário brasileiro. Sua trajetória conecta literatura, educação, autoria feminina e crítica à sociedade escravista do século XIX.
Nota sobre a imagem: a ilustração apresentada nesta página é uma representação artística criada para a Biblioteca Sapphic. Não há fotografia ou retrato autenticado conhecido de Maria Firmina dos Reis.