Capa de Eles e Elas, de Júlia Lopes de Almeida
Literatura · Biblioteca Sapphic

Eles e Elas

Por Júlia Lopes de Almeida

Publicado em 1910, Eles e Elas reúne crônicas, monólogos e diálogos de Júlia Lopes de Almeida sobre casamento, relações afetivas e vida burguesa no início do século XX. Alternando perspectivas femininas e masculinas, a autora utiliza humor e ironia para expor conflitos, expectativas e contradições entre mulheres e homens.

1910 Original em   Português Domínio público

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Guia de leitura

Sobre Eles e Elas

Publicado em livro em 1910, Eles e Elas reúne textos de Júlia Lopes de Almeida que haviam circulado anteriormente na imprensa, principalmente no jornal O Paiz, entre 1907 e 1909.

A coletânea apresenta monólogos, diálogos, reflexões e pequenas narrativas construídas a partir de diferentes perspectivas sobre casamento, convivência doméstica e relações entre mulheres e homens.

Parte importante da originalidade da obra está justamente nessa alternância de vozes.

Em alguns textos, Júlia escreve a partir da perspectiva de esposas e viúvas. Em outros, assume vozes masculinas e permite que maridos exponham suas próprias expectativas, frustrações, ciúmes e contradições.

O resultado é um retrato irônico da vida burguesa brasileira no início do século XX.

Por meio de situações aparentemente cotidianas, a autora aborda comunicação dentro do casamento, divisão dos papéis sociais, traição, aparência, reputação, divórcio e as mudanças que começavam a atingir a posição das mulheres na sociedade.

O humor possui papel fundamental.

Júlia não transforma a obra em um tratado sobre casamento ou direitos das mulheres. Em vez disso, coloca seus personagens para falar e frequentemente permite que suas próprias palavras revelem preconceitos, inseguranças e contradições.

A primeira edição em volume foi publicada no Rio de Janeiro pela Livraria Francisco Alves em 1910.

Na Biblioteca Sapphic, Eles e Elas ajuda a revelar uma dimensão especialmente moderna da produção de Júlia Lopes de Almeida: sua capacidade de observar as relações afetivas e utilizar situações da vida privada para discutir mudanças sociais muito maiores.

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Por que ler Eles e Elas mais de um século depois?

Porque Júlia Lopes de Almeida transforma um dos assuntos mais cotidianos de sua época — o casamento — em um espaço de observação das relações de poder, das expectativas sociais e das contradições entre mulheres e homens.

Eles e Elas nasceu de textos publicados anteriormente na imprensa e reunidos em livro em 1910.

A estrutura da obra é um de seus aspectos mais interessantes.

Júlia alterna diferentes vozes e perspectivas. Esposas, maridos e viúvas refletem sobre casamento, amor, ciúme, traição, aparência, reputação e convivência.

Essa mudança constante de ponto de vista permite que a escritora exponha contradições sem precisar transformar a narrativa em um discurso direto.

Frequentemente é o próprio personagem que, enquanto tenta justificar seu comportamento, revela seus preconceitos e inseguranças.

A ironia é uma das principais ferramentas da autora.

As situações podem parecer leves ou domésticas, mas por trás delas aparecem questões importantes do início do século XX: o espaço reservado às mulheres, a autoridade masculina dentro do casamento, a possibilidade do divórcio e as mudanças nos comportamentos sociais.

Há também algo particularmente interessante na capacidade de Júlia de assumir vozes masculinas.

Ao colocar homens falando sobre esposas, casamento e comportamento feminino, a escritora cria situações em que valores considerados naturais naquele período podem ser observados de maneira crítica.

Por isso, Eles e Elas ultrapassa a simples descrição da vida conjugal.

O livro registra um momento em que antigas regras de relacionamento começavam a conviver com novas expectativas de autonomia e participação feminina na sociedade.

Na Biblioteca Sapphic, a obra ocupa um lugar importante justamente por mostrar como questões aparentemente privadas — amor, casamento, ciúme e convivência — também podem revelar estruturas sociais muito maiores.

Autora

Quem foi Júlia Lopes de Almeida?

1862 — 1934

Júlia Lopes de Almeida (1862–1934) foi uma escritora, jornalista, cronista e dramaturga brasileira, considerada uma das vozes femininas de maior destaque na literatura brasileira da passagem do século XIX para o XX.

Nascida no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1862, Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida construiu uma carreira literária extensa em uma época em que a presença feminina nos círculos intelectuais ainda enfrentava fortes barreiras. Escreveu romances, contos, crônicas, teatro, literatura infantil e livros voltados à educação, além de colaborar regularmente com jornais e revistas.

Sua trajetória também se destacou pelo envolvimento com questões sociais. Júlia defendeu a educação das mulheres, discutiu o divórcio e posicionou-se contra a escravidão. Colaborou com periódicos produzidos ou dirigidos por mulheres, como A Mensageira, e também publicou em veículos de grande circulação.

Entre suas obras estão A Família Medeiros, A Viúva Simões, A Falência, Eles e Elas, Correio da Roça, A Silveirinha e Histórias da Nossa Terra. Sua produção permite observar transformações da sociedade brasileira, as relações familiares, a educação e especialmente os espaços reservados às mulheres naquele período.

Uma das passagens mais marcantes de sua trajetória está relacionada à criação da Academia Brasileira de Letras. Júlia esteve entre os escritores ligados às articulações que antecederam a fundação da instituição, mas não se tornou integrante do grupo fundador. A Academia, organizada com 40 cadeiras e inspirada na Académie Française, não admitiu mulheres naquele momento. Seu marido, o poeta e jornalista Filinto de Almeida, tornou-se fundador da Cadeira nº 3.

Décadas depois, esse episódio tornou-se parte importante da recuperação histórica de sua trajetória. Em 2017, a própria Academia Brasileira de Letras dedicou a Júlia Lopes de Almeida uma conferência do ciclo “Cadeira 41”, criado para discutir autores que poderiam ter ocupado uma das quarenta cadeiras da instituição.

Júlia também foi pioneira em diferentes áreas. Produziu literatura infantil ainda no século XIX, manteve longa atividade jornalística e participou ativamente do debate intelectual brasileiro. Sua casa e seu círculo familiar também estavam profundamente ligados às letras: era casada com Filinto de Almeida e desenvolveu parte de sua produção em um ambiente de intensa circulação literária.

Depois de períodos de menor presença nos cânones e manuais literários, sua obra voltou a receber crescente atenção de pesquisadores, universidades e instituições culturais. Hoje, livros como A Falência são novamente estudados e publicados, enquanto documentos preservados em arquivos e bibliotecas ajudam a reconstruir a dimensão de sua participação na vida intelectual brasileira.

Na Biblioteca Sapphic, recuperar Júlia Lopes de Almeida significa também abrir espaço para uma escritora que construiu uma carreira profissional em um ambiente literário predominantemente masculino e que colocou questões relacionadas à educação e à condição social das mulheres no centro de parte importante de sua atuação pública.